Em tempos de Trump “IMMIGRANTS WE GET THE JOB DONE”: Hamilton

Em tempos de Trump “IMMIGRANTS WE GET THE JOB DONE”: Hamilton

Um espetáculo sobre os EUA do século XVIII cantado em Rap e com elenco multiétnico.

Hamilton: An American Musical

Música, letra e Libreto: Lin-Manuel Miranda

Elenco:
Alexander Hamilton: Lin-Manuel Miranda
Aaron Burr: Leslie  Odon Jr
Lafayette: Daveed Diggs
Eliza Schuyler Hamilton: Phillipa Soo
George Washington: Christopher Jackson
Rei George III: Jonathan Groff

Um dos maiores sucessos da Broadway atualmente, Hamilton tem como tema a vida de um dos Founding Fathers (Pais Fundadores) dos EUA, Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos EUA, o fundador do sistema financeiro americano, lutou na Guerra de Independência e, ah, também era um imigrante. E a questão do imigrante tem aqui um papel importante, em tempos de Trump presidente.

Hamilton nasceu em Charlestown, em São Cristóvão e Névis, uma ilha caribenha. Órfão, abandonado pelo pai, mas dotado de grande inteligência e talento, tem seus estudos custeados por mercadores locais e vai para Nova York, onde vira peça importante no processo revolucionário americano.

O musical ousa a colocar atores latinos, negros e asiáticos nos papéis principais, sendo Lin-Manuel Miranda, autor do musical, o protagonista. O único ator branco da peça Jonathan Groff (Glee), na pele do rei inglês, George III. E, além da ousadia do elenco, Hamilton é um musical baseado inteiro em Hip Hop e em ritmos de origem africana. A idéia de Miranda era associar a imagem de Hamilton – um imigrante pobre e inteligente que consegue, com seu esforço, subir na vida e chegar a grandes cargos públicos – com a imagem de um astro do Hip Hop. Daí a escolha pelo ritmo.

Além de Hamilton, a peça também tem outras figuras históricas como personagens, tais como Aaron Burr, rival de Hamilton e futuro vice-presidente, George Washington, Thomas Jefferson e o Marquês de Lafayette. A peça é dividida em dois atos. No primeiro, vemos a vinda de Hamilton aos EUA, sua amizade com Lafayette, John Laurens e Hercules Mulligan, seu casamento e seu envolvimento na guerra da Independência. No segundo ato temos um teor mais político,tendo o já independente EUA como cenário até a trágica morte de Hamilton em um – SPOILER HISTÓRICO!!- duelo com Aaron Burr.

No que diz respeito as músicas e as atuações, pode –se dizer que o clima de Hip Hop encaixa perfeitamente com a história, levando tudo sempre em uma crescente. Lin-Manuel Miranda é um cantor fraco, apesar de um rapper excelente, mas está muito bem como Hamilton pois, por ser a figura talvez menos habilidosa do período da Independencia, ele consegue o que quer com talento e inteligência. Analogia perfeita com as capacidades vocais e os talentos como rapper de Miranda. Leslie Odom Jr, um rapper americano constrói um Aaron Burr inteligente mas que vê em Hamilton um estorvo e, com sua inveja crescente vai se colocando como rival do protagonista até o trágico final. Mas o destaque mesmo é Daveed Diggs como Lafayette. Grande rapper, Diggs entrega um Lafayette bem humorado que começa misturando francês e inglês – nas músicas, inclusive – e termina em um inglês perfeito e em rimas afiadas. Destaque para “Guns and Ships”, melhor música do espetáculo e onde Diggs despeja 200 palavras por minuto! Um primor! Inclusive, Guns and Ships é a música mais rápida da história dos musicais.

A narrativa desenvolve bem os personagens e suas motivações mas, em determinado momento, lá pelo final do primeiro ato, os eventos vão se atropelando e a passagem de tempo fica prejudicada. Alguns fatos históricos são desconsiderados para fim dramático e narrativo mas que são corrigidos por historiadores, fãs e pelo próprio Miranda no site genius.com.

A questão da imigração  e da etnia é o ponto chave aqui, inclusive um dos melhores momentos é quando Lafayette e Hamilton se cumprimentam enquanto, no meio de uma batalha cantam que “Imigrantes cumprem o trabalho”. O elenco multiétnico compõe um panorama dos EUA contemporâneo que Trump tanto condena. Lin-Manuel Miranda, americano filho de porto-riquenhos escolhe Hamilton para mostrar a força dos imigrantes que construíram o país. Um país que, em essência, foi fundado e habitado por imigrantes perseguidos e indesejados. Não a toa ganhou notoriedade o fato que o então candidato a vice de Trump, Mike Pence tenha sido hostilizado enquanto assistia o musical.

O sucesso de Hamilton fez Miranda ganhar um Tony ( o Oscar do Teatro), onde o espetáculo teve 16 indicações, um Emmy, um Pulitzer de melhor peça de drama e um Grammy pela trilha sonora do musical. Sem perspectivas de chegar ao Brasil e com ingressos esgotados para os próximos dois anos, o espetáculo pode ser escutado pelo Spotify. É altamente recomendado, pois se trata de um excelente musical, que resgata um dos Founding Fathers ao mesmo tempo em que questiona o conservadorismo dos WASP (White anglosaxonian Protestant) ao apresentar para o mundo o caldeirão étnico – e extremamente talentoso –  que são os EUA.

NOTA: 8

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