A infância do Brasil: Um retrato real e pesado sobre ser criança no Brasil

A infância do Brasil
Autor: José Aguiar
Disponível no Social Comics e no site ainfanciadobrasil.com.br

Em tempos onde ali pela direita pessoas protestam de forma hipócrita pelo bem estar das crianças e aqui pela esquerda perdemos a razão ao falar de como crianças devem se comportar, A Infância do Brasil traz diversos retratos pesados de como é ser criança em terras tupiniquins.

O quadrinho aborda a infância de personagens comuns ao longo dos séculos, com foco nos diferentes obstáculos que crianças e mães enfrentaram. Por mais que as histórias foquem nas crianças a figura materna está sempre presente, quase sempre dividindo o protagonismo das histórias. Reforçando: sempre PRESENTE. Diferente da figura paterna que na maioria das vezes é ausente, se descrito como bom ou mal a figura paterna é apenas mencionada ou nem isso, quando ela aparece é alguém desprezível ou que ao longo das páginas ganha a antipatia do leitor. Um retrato perfeito da nossa sociedade com um número imenso de mães solteiras e de pais que acham que ajudar é mais do que suficiente, os famosos “pais que ajudam”.

Ao final de cada capítulo o autor faz um paralelo com os tempos atuais e como as atitudes de séculos passados impactam no século atual. No passado os homens tinham como significado de sucesso ter um filho um fardo ter uma filha, pois elas trariam prejuízo ao pagar o dote, no presente um casal fica alegre ao saber que terão uma menina, mas na seguinte fala do pai: “Já que é menina é bom também.” dá a entender que ter uma filha é menos empolgante que um filho, personagens do passado e presente demonstram uma infelicidade em diferentes proporções ao saber que terão uma filha, alguns podem ver como uma grande evolução 6 séculos depois ter diminuído o número de pais que associam ter uma filha com algo ruim, mas esta (falta de) raciocínio ainda segue na mente de muitas famílias.

Outro ótimo tema abordado é o apagamento da cultura indígena, representado de modo sutil e espetacular, há um confronto de um padre com um sequestrador de índios, num primeiro momento o padre soa como “herói” e o sequestrador o vilão, mas nos quadrinhos sem balão de fala vemos que o padre é tão vilão quanto o outro já que vemos os pequenos índios obrigados a vestirem roupas, sendo chicoteados e obrigados a seguirem a religião dos brancos. E de forma brilhante o autor mostra como isto impactou na vida dos índios hoje.

No capítulo Século XIX Reter temos o auge do gibi. Uma filha de escravos é vítima de uma punição severa e acusada injustamente de furto, quando na verdade o “crime” dela foi o vento soprar as folhas que acabara de varrer. A pequena nasceu depois de entrar em vigor a Lei do Ventre Livre, logo ela não poderia trabalhar. Os diálogos na delegacia, onde a “família tradicional brasileira” defende que a punição aplicada foi justa, são ótimos. A família tenta usar o sobrenome como argumento de defesa e quantos membros da “alta sociedade” se safam da lei graças ao sobrenome? José Aguiar se engrandece neste capítulo ao falar que desde muito tempo no Brasil vários crimes tem como base o racismo.

Ainda sobre atualidades no capítulo Século XX Responsabilizar é guiada pela reforma trabalhista, donos de fábrica reclamando dos trabalhadores terem direitos que é o mesmo discurso imbecil que os adoradores do pato inflado repetem. Ficam na ladainha de bem estar econômico e ignoram o lado humano da questão, que no quadrinho mostra mãe solteira e dois filhos, um dormindo na rua para vender jornal e o outro que sofreu um acidente numa fábrica e teve dedos amputados.

Se desde o começo dos anos 2000 os Racionais MC’s falam “Família brasileira, dois contra o mundo, mãe solteira, de um promissor vagabundo.” as páginas de A Infância do Brasil mostram que essas palavras são resultados de burradas feitas desde o século XVI, um quadrinho que relata a hipocrisia do brasileiro sobre raça, gênero e classe social, pois os anos passam, mesmo com algumas coisas mudando sempre damos um jeito de camuflar nosso racismo, sexismo e elitismo.

Por Tissy Moraes

Confira também a entrevista com José Aguiar no GeekCity 2017

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