Aquele pênalti convertido aos 50 e tantos do segundo tempo

Em 2014 o Atlético-PR disputou a Copa Libertadores da América. Atlético-MG, Flamengo, Cruzeiro e Grêmio conquistaram a vaga no torneiro direto para a fase de grupos. Atlético-PR e Botafogo jogaram a pré-libertadores, que em 2014 era contra apenas um adversário em jogo de ida e volta. O Furacão passou para a fase de grupo e mesmo não se classificando para a fase eliminatória o jogo de volta da pré-libertadores foi épico.

O adversário era o Sporting Cristal do Peru, o primeiro jogo no dia 29 de janeiro no Estádio Nacional, Lima no Peru, o Furacão perdeu por 2×1 e por incrível que pareça saímos no lucro. Ávila abriu o placar no primeiro tempo para os donos da casa, Ederson empatou de pênalti no começo do segundo tempo e Lobatón fez o segundo do Sporting, num pênalti polêmico, cerca de 5 minutos depois. Os donos da casa brincaram de perder gol, como dizem por aí, não existe justiça no futebol, mas se existisse o Sporting merecia ter vencido por pelo menos uns 3 gols de diferença. Para garantir a classificação o Atlético precisava vencer por apenas 1×0, mas Libertadores e Furacão vem com doses extras de emoção.

5 de fevereiro de 2014, jogo em Curitiba e a Baixada estava em reformas para a Copa do Mundo, então o jogo foi na Vila Capanema. Sendo bem franco, com as limitações técnicas de ambos os times o jogo até que foi bom, com boas chances de gols para os dois lados. A partida também foi brigada, antes dos 20 minutos iniciais já haviam sido expulsos um jogador de cada lado e 1 cartão amarelo para o Atlético-PR contra 5 amarelos para o Sporting.

Se fosse definir o segundo tempo num jargão de narradores esportivos teria que ser o famoso HAJA CORAÇÃO. No primeiro lance Fran Mérida iniciou uma jogada e Marcelo quase abriu o placar, instantes depois Natanael chutou de fora da área e a bola passou muito perto e lá pelos 15 minutos da segunda etapa Fran Mérida cobra falta pela lateral direita e Manoel, Senhor Manoel, marca de cabeça. Estava vivo na Libertadores o menino Furacão.

E deu tempo de comemorar? 1 minuto depois, não tinha dado tempo de pular do sofá para comemorar o primeiro gol e voltar a sentar, no lance seguinte os peruanos empataram com Ávila. Dizem que estava impedido, pênalti duvidoso no jogo de ida e agora gol irregular para o adversário é hora que o torcedor torce por um erro de arbitragem favorável, para dar aquele sorriso amarelo de falsa esperança que a fase de grupos chegasse. Naquele momento só vinha na cabeça a morte do menino Furacão na Libertadores, repetindo o feito exclusivo do Corinthians de ser o único clube brasileiro eliminado na pré-libertadores.

49 minutos do segundo tempo, depois de 4 finalizações seguidas um zagueiro do Sporting mete a mão na bola. Pênalti. Naquela hora torcia para o árbitro dar acréscimos até sair o gol do Atlético, expulsar metade do time adversário, goleiro ir para área tentar fazer gol eu só queria um gol. Que fosse contra, de mão, de barriga, impedido o importante era só um gol para poder sofre com os pênaltis. E com esse pênalti aos 49 do segundo tempo e cobrado aos 52 fui engado achando atinge o ápice da emoção vendo um jogo de pré-libertadores do meu time. Ederson converteu o penal daquele jeito… goleiro de um lado e bola do outro.

Não apenas uma comemoração de gol. Tem aquele gol no final de jogo quando o time está perdendo de 7×0 que a gente não sabe se comemora, ri ou chora. Tem aquele gol em final de campeonato que garante o título. Tem aquele gol que sela uma goleado em cima de um rival. Tem também aquele gol chorado nos acréscimos do segundo tempo que garante a vitória e até mesmo um empate com “gostinho de vitória”. Mas esse gol do Ederson despertou uma comemoração diferente. Não foi de título e nem de classificação. Garantiu a vitória por 2×1, mas nessa hora a vitória em si não era uma garantia de nada, apenas de uma disputa por pênaltis e quem acompanha futebol sabe que disputa de pênaltis só é legal com o time dos outros. Já era madrugada do dia 6 de fevereiro, o pênalti convertido pelo Ederson arrancou aquele grito alto de gol, aquele grito que dura uns 5 segundos em que o torcedor esquece de tudo. Não sabe seu nome, não sabe quem é, não sabe o que está fazendo, só sabe que foi consumido por alegria expressada por um grito que une milhares de torcedores num estádio ou que acorda a casa toda. De fato que a maior alegria do torcedor rubro-negro é o título nacional de 2001, mas cada torcedor deve ter outro momento que lembra com carinho e este gol aos 50 e tantos do segundo tempo é um desses momentos.

 

As cobranças ainda trouxeram muitas emoções, o sentimento que o torcedor do Atlético pode ser resumido muito bem com a expressão: do céu ao inferno. Ederson converteu a primeira cobrança para o Furacão, Lobatón fez para o Sporting, Deivid teve sua cobrança defendida, Cazulo fez o segundo para os peruanos, Fran Mérida acertou sua cobrança e Advíncula converteu o terceiro tento para o adversário. 3×2 para o Sporting e Nathan caminhava para a quarta cobrança do Atlético. Correu… bateu e defendeu. Toda aquela alegria vinda com o gol nos acréscimos tinha ido embora. Se Delgado acertasse a quarta cobrança era adeus Libertadores. Mas a estrela de Weverton apareceu e defendeu, uma faísca de esperança voltou a aparecer. Seguia 3×2 para o Sporting, Natanael cobraria o 5º pênalti para o Atlético e Calcaterra para o Sporting, se Natanael errasse acabava a Libertadores para o Atlético e mesmo se fizesse o gol e Calcaterra convertesse sua cobrança era fim da Libertadores para o Furacão. Fosse fazer um cálculo matemático  com minhas habilidades de graduação em humanas e descrente em Deus eu diria que SÓ POR DEUS QUE A CLASSIFICAÇÃO VEM.

Natanael fez. UFA. Calcaterra mandou por cima do gol. UFAAAAAA. Tudo igual 3×3 e começariam as cobranças alternadas. Mosquito e Núñez fizeram e tudo ficou em 4×4. As últimas cobranças seriam nos pés de Manoel e Aquino. Srº Manoel foi devagarinho para a bola e soltou uma bomba rasteira no canto direito. Aquino foi correndo e disparou um canhão certeiro no travessão. Não parecia de verdade. A classificação veio no sufoco. E que sufoco. Nesse dia a bola na trave trouxe de volta todos aqueles sentimentos que o gol do Ederson.

Atlético nunca venceu uma Libertadores, foi vice-campeão em 2005. Em 2017 jogo o torneio pela quinta vez e é a terceira vez que passa para as fases eliminatórias. Em 2014 terminou em 3º lugar e acabou eliminado na fase grupos. Mesmo a classificação contra o Sporting Cristal foi épica e um dos melhores momentos que o Furacão me proporcionou. Claro que um título é importante e quando ganho a torcida vibra muito, só que um time não é feito apenas de títulos, é feito de momentos como aquelas 4 finalizações seguidas nos acréscimos contra o Sporting Cristal, do gol de pênalti aos 50 e tantos do segundo tempo e da classificação sofrida nos pênaltis. Da eliminação do torneio tenho vagas lembranças, mas desse jogo tenho as melhores lembranças e sempre quando elas vem a tona estão acompanhadas daquele orgulho de ser Atleticano.

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